terça-feira, 24 de junho de 2014

Talvez não trocasse nada...


Há cerca de 9 meses atrás recebi uma lista de alunos. Estavam inscritos no 2º e no 3º ano de escolaridade e quase todos tinham à frente do seu nome uma cruzinha que indicava que já tinham tido pelo menos uma retenção. Disseram-me que alguns ainda não sabiam ler nem escrever e que iam ser um desafio. Ainda bem que eu tinha uma especialização em educação especial e que já tinha experiência com “miúdos difíceis”, pois esta não era uma turma para um professor em início de carreira, disseram-me.
Não tenho medo de desafios, mas não estava preparada para o que me esperava.
Estes alunos com muitas dificuldades de aprendizagem, todos a necessitar de apoio pedagógico (que no início do 2º período deixou de existir), três dos quais com necessidades educativas especiais, que não sabiam funcionar enquanto grupo, que tinham dificuldade em concentrar-se, que já tinham passado por diversas turmas e diversos professores, que tinham consciência das suas fragilidades e, por isso, não gostavam da escola foram varridos de várias turmas e agrupados na turma que recebi de presente.
A caminhada foi difícil. Tentei tudo! O que tinha funcionado antes com outras turmas, com eles não funcionava. Muitas vezes passava horas a  preparar aulas que pensava que iriam captar o interesse deles, mas em troca apenas recebia um olhar apático. Durante meses lutei para que a sala de aula fosse um lugar onde aprender fosse um prazer, onde partilhar coisas novas fosse mais apelativo do que olhar para o teto, trocar dois dedos de conversa com o colega do lado, roer borrachas ou desviar a atenção da própria falta de conhecimento, humilhando os outros.
Virei-me do avesso, senti-me incapaz, errei, aprendi, criei laços, as forças faltaram-me muitas vezes e quase atingi o limite das mesmas. Isto porque me preocupei com eles, aceitei o desafio e decidi que iria devolver-lhes a autoestima, a vontade de aprender e retirar-lhes o rótulo de incapazes. No entanto, durante muito tempo senti que só eu queria isto, que as minhas palavras de incentivo não encontravam abrigo, senti que sozinha pegava ao colo a uma turma inteira e fazia o trabalho que lhes deveria competir.
Por vezes as colegas diziam coisas como: “A tua turma não tem dado problemas, não ouvimos falar deles, o que quer dizer que estás a fazer um bom trabalho!”.  Mas como poderia estar a fazer um bom trabalho se a caminhada continuava a ser dolorosamente desgastante?
Da sala ao lado veio um apoio importante, ajudou-me a respirar quando parecia que o oxigénio já quase se extinguira.
No final do ano aprendi a dançar o vira por eles, para lhes ensinar, para fazermos uma apresentação na festa final de ano letivo. Ensaiámos, e muito! Como era de esperar, mais uma vez foi difícil, mas disse-lhes que acreditava neles e só deixaríamos de ensaiar quando todos soubessem os passos.
Certo dia, a meio de um ensaio, sentados no chão a recuperar forças, pediram para cantar as músicas que tinham aprendido ao longo do ano, que tinham sido criadas propositadamente para eles. Acedi. Naquele momento, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Cantavam com entusiasmo, orgulhosos ensinavam os colegas que, entretanto, tinham integrado a turma. Eram um grupo! Ali compreendi que tínhamos feito um percurso, que tínhamos construído uma história, a nossa história!
Todos aprenderam os passos e o vira foi dançado de braços no ar, sorriso nos lábios e sentido de responsabilidade. Dei-lhes os parabéns. Empenharam-se e cada um deu o seu melhor!
Hoje foi dia de entrega dos registos de avaliação aos encarregados de educação. Pela primeira vez estavam (quase) todos presentes à hora marcada. Conhecem as limitações dos filhos e traziam um nervoso miudinho de quem anseia saber se o filho transita ou não. Comecei por agradecer-lhes  o fato de estarem presentes, por dizer o quão difícil tinha sido este ano para mim, para os filhos, mas que os seus meninos tinham evoluído e estavam de parabéns por isso.
Os pais, entre sorrisos e algumas lágrimas responderam com as seguintes palavras: “A minha filha agora gosta da escola”, “ Em três meses conseguiu pôr a minha filha a ler e estou-lhe muita grata por isso”, “Muito obrigada por se ter preocupado com o meu filho”, “Obrigada porque fez o seu trabalho com amor”, “O meu desejo é que para o ano volte a ser professora da minha filha”.
Depois de um ano tão difícil ouvir estas palavras fez-me refletir. É bom quando o nosso trabalho é reconhecido, mas e se não tivesse havido reconhecimento e a jornada tivesse sido mais fácil? Não teria sido melhor? Trocaria de bom grado todos os agradecimentos por um grupo de alunos despertos para a aprendizagem, empenhados, com um ritmo de trabalho fluente, com capacidade de concentração e super motivados. Teria sido tão mais fácil!

A questão é que vivemos uma história em conjunto, criámos laços, crescemos, por isso, (nem acredito no que digo) talvez não trocasse nada...

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