sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Trocar os azuis pelos verdes

O verão lembra-me a cor azul, o azul do céu que se confunde com o azul do mar.
Mas o verde também pode ser sinónimo de verão.
Os últimos dias foram passados entre as águas frescas do rio Alva, as suas pedras roliças e lisas e a vegetação que o envolve. Foi o regresso aos locais que marcaram a infância e povoaram a memória com momentos felizes. Na altura em que as férias de verão eram longas ia para casa dos avós maternos. A viagem parecia interminável, as curvas pela serra embrulhavam-me o estômago mas tudo isso era esquecido quando, finalmente, via a placa da aldeia que dizia vinho com acento agudo no "o". A partir daí a estrada não tinha alcatrão, a maioria das casas não tinha água canalizada nem casa de banho e o carro era trocado por uma carroça puxada por um cavalo para aceder às casas que ficavam no ponto mais alto da aldeia. Tal não acontecia na casa dos meus avós, onde havia um quarto de banho enorme com uma banheira antiga de quatro pés, sobre a qual pendia um chuveiro onde era colocada água quente e de cujas torneiras corria água vinda de um grande depósito que havia no quintal, com água oriunda de uma nascente na serra. Todas as outras pessoas tinham de ir buscar água à fonte. Transportavam-na em cântaros, primeiro de barro e mais tarde de plástico, um na cabeça e outros dois nas mãos. Lembro-me de ficar a admirar a forma como as mulheres conseguiam equilibrar todo aquele peso com grande mestria. Também eu tive um cântaro pequenino e uma rodilha, para o colocar na cabeça, que a minha avó comprou na feira. Só nunca o consegui transportar sem o segurar com as mãos, apesar de ter treinado muito para isso. Em criança, as férias eram passadas com os avós, que me davam toda atenção, a correr atrás de borregos e cabritos, a correr pelas encostas da serra, com outras crianças, para apanhar as canas dos foguetes lançados em dias de festa, a aprender que as giestas são as nossas melhores amigas nesta situação e a nadar nas águas límpidas do rio. É bom voltar e rever tantos locais, agora com outros olhos. Os avós, infelizmente, já lá não estão, apenas na memória. Agora estão lá os pais que regressaram às origens e é o Tomás que encontra lá os avós, que começa a construir as suas memórias. As praias fluviais de outros tempos, que pouca intervenção humana tinham, encontram-se agora dotadas de inúmeras infra-estruturas de apoio e foram ou esperam ser galardoadas com bandeira azul. São locais agradáveis mas cheios de gente por todo o lado e não querendo parecer anti social,  o desafio foi encontrar praias onde o som que ouvimos é o da água a correr e das aves que voam em redor. Já vão sendo raros estes locais mas existem e nós encontrámo-los!
Foi bom trocar os azuis pelos verdes!!!